TASCA O BERNARDO (Boavista dos Pinheiros)

Já foi tão melhor… 🙁

Nem sempre é bom voltar a restaurantes que já foram dos nossos preferidos. Restaurantes que nos marcaram seja por que motivo for, que sempre adorámos… e aos quais voltamos passado algum tempo, ainda com as boas memórias frescas na cabeça. É certo que há alguns que continuamos a adorar, mesmo percebendo que o nosso contexto é diferente, mas ainda assim conseguimos ver que a génese daquilo que nos tornou fãs continua igual. Só que depois há outros em que, por mais que queiramos inventar desculpas, percebemos que mudaram tanto… que já não conseguimos deixá-los naquele patamar tão elevado. E ficamos de rastos. 🙁

O Bernardo já foi um dos meus restaurantes preferidos em todo o País. Aliás, a par da Noélia em Cabanas de Tavira (podem ler aqui o nosso review), um dos únicos que me fazia desviar-me de viagens ou ir até lá de propósito para ir jantar. Porque me fez sempre lembrar bons momentos, bons tempos, outros tempos. Encontrei-o pela primeira vez completamente por acaso, porque estava alojado lá perto e não tinha onde ir jantar. E fui. E gostei. Muito! Tanto que voltei no dia seguinte. E no ano seguinte, quando andava outra vez por aquelas bandas, fui lá novamente. E assim aconteceu quase sempre desde então, já lá vão mais de 15 anos…

E aquilo que eu sempre adorei no Bernardo foi a comida, genuína e fantástica, e o serviço que nos fazia sentir em casa. E, já agora, os preços, bastante simpáticos para um restaurante que fica em Boavista dos Pinheiro, não muito longe da Zambujeira do Mar. Mas as coisas mudaram, e as últimas duas visitas (com deslocações propositadas para passar por lá) fizeram-nos ver um Bernardo bastante diferente daquilo que conhecíamos…

O primeiro impacto continua a ser o mesmo, porque O Bernardo continua a ter a mesma decoração rústica,no sentido em que a decoração tem tudo a ver com o Alentejo e as suas tradições, desde a cozinha que simula um antigo forno, até à própria louça de barro que nos trazem para a mesa… sempre senti isto como rústico, mas genuíno.

Mas uma das coisas que mudou radicalmente foi o serviço. Aquilo que antes era simpático, acolhedor, prestável e muito interessado nos clientes… passou a ser completamente despersonalizado, sem uma palavra amiga nem um sorriso. Não sei se mudou a gerência ou se simplesmente mudou o tom, mas a mudança foi para muito pior. Muito pior mesmo. E também está lento, mas estupidamente lento. Um restaurante onde havia sempre agitação na sala, com pessoas a andar de um lado para o outro, é agora um deserto de empregados, nunca está ninguém na sala, os clientes têm de esperar imenso tempo para pedir seja o que for… e depois as coisas ainda demoram a chegar. Na nossa última visita, demorámos quase 30 minutos até conseguir pedir os pratos, e numa sala meio cheia. Que desilusão…

o bernardo entrada

E em relação à comida… mixed feelings. A base da ementa continua a ser a mesma: carne de porco (preto e/ou ibérico) e alguns cortes de carne de novilho. Ou seja, estamos num registo de pratos de carne, e carne daquela que se serve no Alentejo. É certo que há uns pouco pratos de peixe e ainda uns bifes de frango, mas aqui come-se carne. E, durante muitos anos, fui de propósito até Boavista dos Pinheiros para comer essa carne, que achava das melhores que já tinha comido, não só pelo sabor mas principalmente pela forma como era confeccionada, na grelha, ainda com aquele toque ligeiro a churrasco, a carvão.

o bernardo

Mas se é verdade que o produto continua a ser bom… também é verdade que quem está na grelha mudou, ou pelo menos já não tem a mesma mão. O sabor é diferente, menos intenso. E as doses foram diminuindo ao longo do tempo, ao mesmo ritmo que os preços foram aumentando ligeiramente.

o bernardo carne

Por um lado, isso percebe-se, porque os restaurantes têm de sobreviver. Mas por outro, quando se tem uma fórmula de sucesso… mudar para quê? O Bernardo que eu me lembrava de há uns anos atrás estava sempre cheio, principalmente com pessoas que seriam da zona, porque havia uma afinidade enorme com quem vinha servir à mesa. Havia um ambiente familiar, percebem? Que agora não existe, que não sentimos de todo nas duas últimas visitas: um restaurante silencioso, com as pessoas nas suas mesas, sem nenhuma interação com os empregados (das poucas vezes que aparecem na sala), e sem aquele burburinho bom que existe sempre quando nos aparece comida excelente à frente.

o bernardo carne

Nada está igual, nem nas entradas, nem nas carnes que ocupam grande parte dos pratos principais, nem nas sobremesas, que antes eram típicas e sentiam-se mesmo caseiras… e que agora são simplesmente normais, daquelas que podemos encontrar em qualquer restaurante.

o bernardo sobremesa

Os tempos mudam, é verdade. E, mais do que isso, os nossos contextos e experiências também são diferentes, tenho a perfeita noção disso. Mas conseguimos perceber quando foi simplesmente a nossa realidade que mudou, ou quando foi a realidade do restaurante que sofreu uma mudança enorme. E, no caso do Bernardo, a diferença é demasiado radical para ser apenas percepção nossa. O que me deixa de rastos, porque tinha este espaço com um daqueles “portos seguros” onde podia voltar sempre que quisesse fugir das banhadas que vamos apanhando um pouco por todo o País. 🙁

o bernardo sala

Tinha o Bernardo no coração. E vou ter sempre, na verdade, por causa das lembranças que me provoca, de todos os bons momentos que lá passei. Mas já não vai ser um daqueles restaurantes que recomendo a qualquer pessoa a ir propositadamente, mesmo que estejam longe. É um restaurante onde até tenciono voltar, mas só se estiver na área. E essa mudança de perspectiva deixa-me extremamente triste. Ou antes, desiludido. Porque não fui eu que mudei. Foi O Bernardo…

Preço Médio: 25€ pessoa (com vinho, simpatia e comida excelente)
Informações & Contactos:
Av. do Comércio, 6 A (Boavista dos Pinheiros) | 7630-033 Odemira | 283 386 476

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