ZAPATA

Era uma boa tasca… antes do turismo.

O turismo é um fenómeno muito “tricky” para uma cidade ou País. Porque é necessário, é verdade, não há como pensar de outra forma. Mas também porque acaba por transformar alguma da oferta, que antes era totalmente virada para locais e depois se vai ajustando a atrair mais o cliente estrangeiro. Isso acontece em vários sectores, mas nos últimos anos anos, em Lisboa, tem acontecido especialmente na restauração.

Ou seja, há restaurantes que realmente eram melhores há uns 15 anos atrás, antes do “boom” turístico que encheu Lisboa de mais estrangeiros do que propriamente alfacinhas. Restaurantes que perceberam que a sua localização os tornava apelativos ao turista que ia sair à noite, e por isso começaram a virar para aí a sua oferta, aumentando os preços e, na maioria dos casos, diminuindo a qualidade. E este conjunto de factores faz com que, quando lá voltamos passados alguns anos, percebemos que aquilo que nos agradava tanto… agora simplesmente não existe.

E é aqui que chegamos ao caso do Zapata. Era um dos nossos pousos regulares em tempos de faculdade, onde íamos fazer jantares de amigos antes de subirmos para os copos na Bica ou no Bairro Alto. E na altura gostávamos muito, porque os preços eram acessíveis às nossas carteiras, as doses eram boas, o vinho da casa excelente… e a comida não tinha nada a apontar. Coisas simples, mas saborosas. Era um dos favoritos.

Ora… depois veio o turismo desenfreado. Alojamento local, turistas de todo o lado, sempre à procura da genuína experiência gastronómica portuguesa. Especialmente em zonas próximas daquelas onde depois há diversão nocturna. E isso fez com que muitas das tascas e restaurantes mudassem para se adaptar a este novo cliente, que tem mais dinheiro e que não é tão exigente.

E por isso, hoje quando voltamos ao Zapata, percebemos que há apenas duas coisas que se mantém em relação aos nossos tempos de faculdade: o serviço continua rápido, ainda que tenha perdido grande parte da eficácia e simpatia; e o vinho da casa, esse sim, continua bom.

Mas ficamos por aqui. A comida perdeu imensa qualidade e os preços aumentaram substancialmente. Só mesmo o posicionamento turístico justifica que a meia dose de carne de porco à alentejana, por exemplo, custe 13€. Ou 18€, a dose inteira. E aí por diante. E é esse mesmo posicionamento turístico que justifica a má execução de praticamente todos os pratos que nos chegaram à mesa num último jantar.

Os croquetes de entrada até são saborosos, mas estão secos, percebemos que já têm algumas horas (pelo menos). O mesmo acontece com a maioria dos pratos: o Bacalhau à Brás, que era um dos ex-libris da casa em tempos antigos, é agora seco, muito seco, sem sabor nenhum, com os ovos a ficarem mexidos; o mesmo problema tem o Bacalhau à Lagareiro, mesmo sendo uma boa posta, mas completamente seca, nem se desfaz como deve ser (além de que vem acompanhado com batata a murro, batata cozida, cenoura cozida, cenoura ralada… enfim, um desleixo completo); e a terminar a trilogia, o Piano Grelhado, que não custa memo nada a fazer, chega à mesa também estupidamente seco, a carne ressequida, além de não estar minimamente temperado. Uma tristeza.

Melhor está a tal Carne de Porco à Alentejana, onde a carne é tenra e saborosa, ainda que servida com batatas fritas já meio frias e por isso muito desenxabidas. E o melhor da noite são os Filetes de Polvo, tenros e bem recheados, ainda que acompanhados por uma Açorda miserável. Não se pode ter tudo…

Ou seja, nem a grelha nem os pratos de tacho são aquilo que nos lembrávamos. Basta olharem para as fotos para ver sempre a mesma mão-cheia de salada desnecessária, e quando comparamos as doses com os preços praticados, percebemos que já não somos o target do Zapata.

Nas sobremesas, temos também altos e baixos… o Bolo de Bolacha é claramente o vencedor da noite, daqueles clássicos, com sabor a manteiga e a café; depois temos uma Torta de Claras que é normalíssima, um Pudim Abade de Priscos que se nota que não é fresco e um Cheesecake onde nem o recheio nem o topping se aproveita, é tudo demasiado industrial.

Felizmente, como escrevemos em cima, o vinho da casa bastante bom, o que faz com que o jantar seja animado, mesmo sem a comida nos dar grandes motivos para ficar contentes.

Lá está, até podia ser apenas a nossa percepção. Mas recebemos bastantes mensagens a dizer a mesma coisa, que o Zapata se foi tornando mais turístico e perdendo a qualidade. E este, infelizmente, não é um caso único, especialmente no centro de Lisboa. Da nossa parte, foi uma decepção tremenda, mesmo considerando que não estávamos com expectativas assim tão altas. Mas, num jantar de grupo, pagar quase 30€ por pessoa numa tasca, para comer comida medíocre, deixa-nos extremamente tristes.

Preço Médio: 20€ pessoa (com vinho da casa)
Informações & Contactos:
Rua Poço dos Negros 47 | 1200 Lisboa | 21 390 8942

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