Nota prévia: este texto não é contra “Chefes”, galas de prémios ou coisas do género. É uma reflexão nossa sobre aquilo que estamos a sentir neste momento, em relação à restauração em geral. Só isso.
A mais recente edição dos prémios da Mesa Marcada fez-me refletir um bocado sobre o panorama da restauração atual. Foi um trigger como outro qualquer poderia ter sido, foi apenas este. Nada contra a Mesa Marcada, prémios do qual sou votante. Mas efetivamente fez-me pensar sobre… coisas.

Porque o ano de 2026 começou com vários artigos em publicações sobre a crise na restauração, motivados maioritariamente pelas queixas de vários Chefes de renome, incluindo alguns com Estrelas Michelin. Queixas completamente legítimas, é verdade, especialmente no que respeita a não existir regulamentação governamental que “facilite” de alguma forma a sobrevivência financeira dos restaurantes, ou sobre o aumento de preços da matéria prima versus os preços praticados nos restaurantes. É legítimo, muito legítimo mesmo, porque todos sabemos que os produtos aumentaram muito de valor, por isso é normal que tudo esteja mais caro. E que muitos destes restaurante abdiquem das suas margens para assegurar clientes. Mas depois…

Depois temos o outro lado. Temos os restaurantes que não aparecem nas notícias ou nas listagens turísticas. Aqueles restaurantes de bairro que continuam a sobreviver e, muitos deles, mais do que isso: continuam a fazer o seu trabalho de forma simples, como sempre fizeram, com preços suportáveis, o que leva a que estejam quase sempre cheios. São os restaurantes tradicionais, as tascas – mas não as modernas, aquelas que querem ser tascas só pelo hype. São restaurantes que não têm como proprietário nenhum grupo de restauração, restaurantes que na cozinha não têm “chefes”… mas sim cozinheiros.

A minha reflexão levou-me a isto: é este o ponto a que estamos a chegar? Fala-se muito da crise na restauração, mas quem fala sobre isso tem efetivamente ido a todo o tipo de restaurantes, ou apenas a restaurantes de autor? Porque também se fala muito da “morte das tascas” ou dos restaurantes tradicionais, e a verdade é que alguns vão fechando, pelas mais diversas razões. Mas… quem é que se preocupa efetivamente com aqueles que continuam abertos, continuam cheios, continuam a fazer comida simples e caseira, a servir sem filtros, a cobrar preços que podemos todos pagar?

Estamos tão focados em Chefes e em restaurantes da moda e em eventos que cruzam Chefes e restaurantes, ou em ir a restaurantes que dão para criar conteúdos giros para as redes sociais… que nos esquecemos que, na nossa rua ou no nosso bairro, temos aquele restaurante tradicional, aquele sítio com pratos que custam menos de 10€… mas onde não entramos porque não tem pinta suficiente. Mesmo que a comida – que é aquilo que DEVIA MESMO INTERESSAR nos restaurantes – seja muito boa, não a vamos provar porque não vai gerar bom conteúdo?! Será que é o mais importante é mesmo a aparência?
Precisamos mesmo de premiar mais um prato com carabineiro ou um “Chefe” que sabe fazer uma emulsão? Ou não seria preferível destacar aquela Feijoada inesquecível, aqueles Cuscos Transmontanos? Ou uma Grelhada Mista que nos fica na memória, ou umas Pataniscas que nos transportam a casa dos nossos avós… Quem é que dá prémios ao senhor que está atrás da grelha a fazer umas sardinhas no ponto, ou àquela cozinheira que passa o dia a cortar batatas para levar à mesa a batata frita caseira perfeita?

Onde é que está o prémio para a Lagarada de Bacalhau do Maçã Verde, tasco onde muitos “Chefes” acabam a almoçar ou a jantar? Ou para o Cozido do Apeadeiro do Rego, considerado por muitos o melhor de Lisboa? Para o Bitoque do Jorge D’Amália, que nem há palavras para descrever? Para o Bacalhau à Brás do Bar Portas Verdes, onde “há ou que houver e pronto!” Ou para o prato de Dobrada que é servido com entradinha na Tasca do Gordo, ou para o Sítio de Gente Feliz e qualquer um dos seus petiscos? Ou mesmo para os Panados com Salada Russa do Vida de Tasca, que mesmo com cozinheiros da nova geração, manteve-se uma tasca de bairro à antiga?

Não há prémios para isto, e se calhar nem é preciso. Mas é preciso que tenhamos a noção que estes restaurantes (ou tascas, se quiserem utilizar um termos que está mais na moda) representam aquilo que a nossa restauração sempre teve de melhor: o receber, o servir, o dar boa boa comida a preços justos. Não há prémios para estes cozinheiros/as, que fizeram isto uma vida inteira… e vão continuar a fazer até morrer.
E atenção, voltamos a dizer que este texto não é contra ninguém: até porque, muitas vezes, estes “Chefes” conceituados são as pessoas mais simples do Mundo! Com quem se consegue jantar e beber copos, partilhar histórias e experiências e, acima de tudo, pessoas que gostam mesmo de estar horas atrás de tachos e panelas a fazer aquilo que sabem fazer melhor: cozinhar.
Isto não tem a ver com as pessoas em si… mas sim com o facto de vivermos numa sociedade que transforma estes cozinheiros em “Chefes”, que os valida através de prémios e “Sóis” e “Estrelas”, em vez de os valorizam por serem cozinheiros DO CARALHO! Porque fazerem pratos que nos transportam para memórias que pensámos nunca voltar a ter. Porque sabem que a cozinha portuguesa tem tudo a ver com ingredientes e produto, confeccionado de forma simples.

Por isso não, este texto todo não é contra os Chefes, contra os restaurantes de Cozinha de Autor, nem contra os prémios para este tipo de restauração. Há lugar para todos, e ainda bem.
Mas não faz sentido destacar apenas quem tem projeção mediática. Não faz sentido dar palco só a quem já tem palco suficiente. E se calhar cabe-nos a nós, malta que vai a restaurantes e que tem plataformas para comunicar isso, escolher melhor os sítios onde vamos. E em vez de seguirmos a “carneirada” e criarmos conteúdos sobre restaurantes da moda… porque é que não vamos mais àquele restaurante que temos na nossa rua? Aquele que, mesmo não sendo “instagramável”, existe há mais anos do que nós somos vivos e continua a ser o local seguro para a malta do bairro ir almoçar ou jantar. Aquele que não tem nenhuma distinção e que, na cozinha, tem efetivamente cozinheiros/as.
Num País de cozinheiros e cozinheiras… não teremos já “Chefes” a mais?
Não há Chefes a mais. Há sim, restaurantes a mais. E aventureiros a mais. E uma turbe de clientes pelintras, que querem comer baratinho à conta de quem investe, e de quem dá o couro a trabalhar nos restaurantes. Não têm dinheiro comam em casa ou no fast foid. A qualidade custa dinheiro, muito esforço, sacrifício e dedicação. E como tal tem que ser valorizada e paga em conformidade.
O crescimento qualitativo da restauração em Portugal (a todos os níveis, porque um restaurante é muito mais que um sitio onde se vai comer) só se consegue com profissionalismo e conhecimento. A selecção natural irá naturalmente fazer-se, e irão apenas restar os mais preparados. A partir daí talvez Portugal tenha uma restauração ao nível dos melhores do mundo. Até lá, clientes e donos de restaurantes, terão que mudar a mentalidade sobre este negócio.
Subscrevo
Completamente de acordo