CHINÊS CLANDESTINO

CHINÊS CLANDESTINO

Chinês? Sim. Clandestino? Pouco…

A primeira vez que fui a um “chinês clandestino” foi uma das experiências mais fora do comum da minha vida. Subimos até ao 5º andar de um prédio residencial da Rua da Palma, entrámos em casa de uma família chinesa, ficámos fechados num quarto dos fundos, escolhemos os pratos escritos à mão numa folha de papel (e não conhecíamos nenhum deles), comemos tudo meio a medo enquanto as crianças corriam a brincar pela casa. No final, pagámos com dinheiro o valor que nos disseram na altura e saímos, com chineses já de pijama em casa.

Ora… o que é que isto tem a ver com o Chinês Clandestino da Mouraria? Rigorosamente nada. Porque o grau de “clandestinidade” deste restaurante tem basicamente a ver com o facto de não existir um letreiro à porta. Porque de resto, a mal ou a bem, é cada vez mais mainstream. Turístico, até. E isso transforma-se em 2 pontos a desfavor do Chinês Clandestino: nem é surpreendente a nível da comida e preço… nem tão pouco é clandestino.

Mas comecemos pelo princípio, que é a entrada, num prédio sem qualquer sinalização no meio da Mouraria. É o máximo de clandestinidade que temos neste Chinês Clandestino, e ainda assim esta entrada é denunciada pelos vários turistas à porta, a olhar para os seus guias e a confirmar se é exactamente aquele o sítio.

Depois subimos ao primeiro andar e lá está o restaurante, uma espécie de cantina, com mesas corridas, toalhas de papel e, nas paredes, quadros com fotos de pessoas mais ou menos conhecidas que já por lá passaram. As mesas estão ocupadas com vários grupos, mas maioritariamente estrangeiros. Sim, turistas, num restaurante teoricamente “clandestino”.

Depois, a lista, que ainda que tenha vestígios de muita utilização, não deixa de ser uma lista de restaurante. Não temos aqui aqueles pratos chineses mais comerciais, o que é um ponto positivo, mas depois a maioria não surpreende a nível de sabor. É tudo demasiado “contido”… ou quase tudo.

Por exemplo, e sem qualquer tipo de ordem (até porque os pratos vão chegando à mesa aleatoriamente), temos uns Crepes grandes e maravilhosamente oleosos e com um recheio sem grande sabor, mas que melhora um pouco depois de levar com molho picante e agridoce para cima. Ou o Frango com Amendoim, variante de um prato normalíssimo dos chineses não clandestinos, simpático a nível de proporções e razoável ao nível do sabor, mas sem ser surpreendente.

O que surpreende é a Pá de Jardim Picante, uma espécie de “salada” fria com algo que pensamos ser rebentos de bambu… mas que são palitos finíssimos de batata muito pouco frita, quase crus, molhados num molho bastante picante. Um prato que serve de acompanhamento e que consegue ser simultaneamente fresco e quente (por causa do picante), mas que é um dos destaques da noite, pelo menos por sair do registo da normalidade. Por não ser “comercial”, digamos. Mais normal o prato do lado, o Camarão na Chapa Quente, sem nenhum sabor em especial, nem está puxado ao alho, nem tem um molho diferenciador, nem os camarões são fantásticos.

Os pratos vão chegando à mesa realmente sem ordem nenhuma, o que faz com que os Raviolis de entrada cheguem ao mesmo tempo do Frango Frito. Este último servido em pequenos pedaços irregulares e bastante seco, claramente precisava de algum tipo de molho para o tornar mais interessante. Os raviolis são bons, bem recheados, numa dose bem servida.

Depois ainda há um Pato Assado, que não é um Pato à Pequim, e que devia ter a pele mais crocante, porque está assim tudo um bocadinho para o mole e seco… Ou outro dos apontamentos positivos da noite: a Carne com Sabor a Peixe, que é exactamente aquilo que está descrito no nome. Tiras de carne com pimentos e um molho intenso de peixe, o que torna este prato numa agradável surpresa.

Finalmente, outra das estrelas da noite, e também o prato que demora mais a chegar à mesa. O Bife Cozido Picante tem assim um quê de sopa, porque é servido numa malga com imenso caldo, um caldo picante como o caraças! Estão a ver todos os pedaços de chilli na foto? Pois que resultam mesmo! O prato em si é bastante interessante (além de picante), ainda que a proporção de carne para o resto dos ingredientes seja relativamente baixa, o que faz com que esta desapareça rapidamente e depois fique apenas o molho.

Para sobremesa, dois frito: ou Gelado ou Banana. E não há cá essas coisas “comercialóides” como rum em fogo. Não, aqui estas sobremesas são servidas ao natural… ou com um topping de chocolate. Para ser mais clandestino. Pois.

Por tudo isto que descrevemos, saímos deste Chinês Clandestino a pensar no outro chinês clandestino (a sério!) onde fomos há muitos anos atrás. E onde tivemos uma experiência verdadeiramente clandestina e caseira. Percebemos que, com o passar do tempo, é necessário transformar este tipo de sítios num negócio, mas então assumam-nos. Em vez de “clandestino”, podíamos ter ido jantar ao Chinês “Alternativo” e ficávamos menos desiludidos.

Por este andar, da próxima vez que formos ao Chinês Clandestino já vai haver multibanco e uma sinalética na porta. E toalhas de mesa e ainda mais turistas. Parece-nos o percurso normal das coisas, ainda que seja o errado (na nossa opinião). Por enquanto, ainda está numa clandestinidade relativa. Pelo menos para quem vê da rua.

Preço Médio: 15€ pessoa (com vinho)
Informações & Contactos:

Rua da Guia, 9 – 2º dto. | 1100-132 Lisboa | 966 355 786
Não tem Multibanco.

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