Bons petiscos indianos… mas para turistas.
Querem saber qual é a principal vantagem de continuarmos a não dar a cara e a ir ao restaurantes como clientes mistério? Temos experiências genuínas, ou o mais aproximado disso. Como não aceitamos convites (geralmente) nem combinamos datas com restaurantes, não existe aquele tratamento especial que os influenciadores têm, porque o staff do restaurante sabe quem são. Não gostamos disso, nunca gostámos, e por isso é que mantemos o anonimato e quase nunca aceitamos convites. Ou, quando aceitamos, combinamos a visita em regime de cliente mistério… o que, só para que saibam, inviabiliza cerca de 90% dos convites que nos fazem. Porque os restaurantes não alinham nisso…

E qual é a razão deste enquadramento? É a nossa recente visita ao Gunpowder Lisboa, um dos restaurantes da nossa whishlist para 2026 (e que já estava na nossa whishlist do ano passado). Um restaurante onde fomos a primeira vez num evento especial – uma “Curry Night” – e do qual gostámos tanto que quisemos mesmo muito regressar. Porque a comida foi efetivamente surpreendente! Mas, como dizemos demasiadas vezes… a comida não é tudo num restaurante.

Ora, regressámos ao Gunpowder Lisboa agora no início do ano, para jantar como clientes “normais”, num dia normal. E a experiência que tivemos, quase do início até ao fim, foi… estranha… no fundo, e sem grandes rodeios, sentimo-nos turistas. Na nossa própria cidade.
E não vamos começar com extremismos estúpidos, porque nunca tivemos nem temos problema nenhum com restaurantes mais virados para o turista. Ou restaurantes onde os empregados não falam inglês. Há restaurantes assim, e se lá entramos e ficamos, é porque queremos. Ponto final. Mas aqui no Gunpowder Lisboa foram demasiadas coisas, ao ponto de nos começarmos a sentir desconfortáveis… e passado algum tempo, simplesmente irritados.


Até porque já conhecíamos o espaço, naquela onda de bistrot a atirar para o modernaço e trendy, que tanto podia ser um restaurante indiano como de outro tipo de gastronomia qualquer. E também já sabíamos qual era o tipo de preços praticado, porque não estamos no registo do indiano tradicional e barato. O Gunpowder Lisboa é um indiano trendy, moderno, de fusão e de autor… com tudo o que isso tem de bom e também como tudo o que isso tem de mau.
Somos recebidos pelo chef de sala, em português… e a partir daí todos os empregados – que foram vários – falam connosco em inglês. É que nem sequer há uma pergunta prévia, assumem imediatamente o idioma. É verdade que a sala está cheia de estrangeiros… mas não deixa de ser um bocado chato. É tudo uma questão de atitude, ou se abordagem, se preferirem.

Mas concentremo-nos em coisas mais positivas, porque temos tempo para regressar ao que correu menos bem. A ementa do Gunpowder Lisboa está dividida em três parte: entradas/petiscos para dividir (que claramente tem os maiores destaques da ementa), pratos principais e sobremesas. Há coisas que já sabíamos que íamos pedir, pela curiosidade, mas a pergunta normal a quem nos atende, sobre o que sugere, gera a resposta genérica “tudo é bom”. Em inglês, claro. Enfim…

Começamos pelo Coração de Alcachofra Grelhado em Massala de Pimenta Vermelha, que é um dos dois melhores pratos da noite. A alcachofra perfeita, a massala fenomenal, tudo maravilhoso. Vem um Nann a acompanhar, assim mais fino e sem sabor nenhum, mas quando molhamos no molho serve o seu propósito: molhar no molho.

Seguimos com os pratos para partilhar, e neste caso, com o segundo melhor prato da noite: o Caranguejo de Casca Mole Karwari (coberto com um molho goês), que não só é visualmente impactante, como é um prato sem falha nenhuma! O caranguejo está deep fried como deve ser, crocante e com o interior ainda suculento, e o molho que tem por cima tem uma densidade muito interessante. E, ao mesmo tempo, temos o Donute de Borrego, um daqueles pratos “instragramáveis” do Gunpowder Lisboa, e que todos os “criadores de conteúdos” que lá vão recomendam… ora, não foi o nosso preferido, de longe. A massa Vermicelli Crocante à volta é interessante, mas o interior é uma mistura de carne picada de borrego, que não se destaca por nada. É só carne picada, percebem? Sem intensidade nenhuma, o que é sempre mau num restaurante indiano…

Sabíamos que tínhamos ainda de ir a um prato principal, até porque várias pessoas nos sugeriram o mesmo: o Porco Crocante de Nagaland. A descrição diz “Porco Alentejano Salteado e Glaceado com Tamarindo”, o que nos deixa água na boca… só que acaba por não ser bem assim. Não há nada crocante no porco, é mole, e o molho tem zero de tamarindo, é simplesmente uma coisa demasiado doce. E o Arroz Pulao de Açafrão e Cominhos que pedimos tem ABSOLUTAMENTE ZERO TEMPERO. Não sei isto não foi o que nos chateou mais no jantar! Porque pensávamos ser impossível um arroz de açafrão e cominhos num indiano não saber a nada… até provarmos o do Gunpowder Lisboa e percebermos que é o pior arroz que já comemos num restaurante.

Já tínhamos escolhido a sobremesa, por isso mesmo depois de um prato principal que foi quase completamente ao lado, seguimos com o Pudim de Pão e Manteiga e Rum Old Monk. Uma sobremesa equilibrada, um bom pudim de pão, um gelado simpático a acompanhar, e zero de rum. Numa fase da restauração em Lisboa em que 6,5€ por uma sobremesa, esperamos sempre mais… mas também já percebemos que isso não vai acontecer na maioria dos restaurantes.

Agora que terminámos de falar sobre os pratos, voltemos então aos sentimento geral do nosso jantar: o que que fomos tratados como turistas. Porque não é só o facto de todos os empregados terem ido à nossa mesa falar em inglês – isto depois do Chef de Sala nos ter recebido em português e ter percebido que éramos… lá está, portugueses. E talvez por isso mesmo, nós fomos a única mesa naquela sala que teve de levantar o braço e tentar chamar a atenção de um empregado; assim como fomos aquela mesa que, quando pedido para mudar os pratos depois das entradas para não misturar os molhos, ficou sem pretos durante bastante tempo porque se “esqueceram” de nós; e também fomos a única mesa da sala onde a garrafa de vinho ficou no frapé e fomos nós que nos tivemos de servir durante o jantar todo (e atenção, não temos nenhum problema com isso… mas não sirvam todas as outras mesas e nós ficamos a ver). Ou seja, o serviço foi errático, para ser simpático. E percebemos claramente que o que falhou na nossa mesa está relacionado com o facto de sermos clientes “domésticos”, que se calhar não gastam tanto como os turistas…

Até porque a cereja no topo do bolo é o momento da conta. Que infelizmente começa a ser o “normal” nos restaurantes em zonas turísticas de Lisboa. Ou seja, o Gunpowder Lisboa é daqueles restaurantes onde recebemos a conta com a sugestão de gratificação incluída… e pior do que isso: quando nos trazem o terminal de multibanco, marcam imediatamente o valor incluindo a gratificação, sem sequer perguntar. Ora… mesmo que o serviço tivesse sido fantástico – que não foi – o mínimo é perguntar se queremos dar a gratificação ou não. Agora, o assumir que temos de a pagar, não só é estúpido como funciona quase como uma “tourist trap”. E sim, a resposta é sempre a mesma: habitualmente, os clientes pagam a gratificação (em inglês, claro). Porque são turistas…
Enfim, é o que é. Seria muito fácil ter combinado a nossa visita com o restaurante e sabemos que a experiência tinha sido diferente. Mas não é assim que nós fazemos as coisas… e ainda bem que a nossa experiência foi esta. Porque é o mais genuína possível. Fomos bem recebidos, mas depois tratados como clientes “de segunda”. E a única diferença em relação às restantes mesas ocupadas no Gunpowder Lisboa foi o facto de falarmos português. O que é muito triste… Podem haver todo o tipo de justificações, mas foi isto que nos fizeram sentir durante o jantar, pela forma como fomo tratados. E, infelizmente, não há comida excelente que nos faça esquecer tudo o resto…
Preço Médio: 40€ pessoa (com vinho)
Informações & Contatos:
Rua Nova da Trindade, 13 | 1200-303 Lisboa | 21 822 7470
Foi exatamente assim que eu me senti quando lá fui, há bem mais de dois anos.
Pena, pq era mesmo muito fã do Gunpowder em Londres. Entretanto tb já ouvi que lá mesmo cresceram demais, abriram filiais e a comida perdeu muito.
Eu mora em Lisboa e falo português mas não sou português. Gosto muito da comida do restaurante mas, na minha experiência, o serviço é mau para todos. Era melhor há dois anos, mas o seu artigo indica que não continua bom. É triste porque a comida é mais picante (para mim, bom) e de melhor qualidade do que muitos outros restaurantes indianos em Portugal.