RUA

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Street food asiática… de autor? Pois que sim!

Já aqui escrevi muitas vezes sobre variados temas, de entre os quais estes três: expectativas, modas gastronómicas e o nosso conhecimento (ou falta dele) sobre o que se come em algumas regiões do mundo. São três temas recorrentes e completamente diferentes… mas todos eles se enquadram na perfeição ao que temos à opinião que criámos do RUA depois do nosso jantar. Não porque tenhamos tido uma má experiência, aliás, muito longe disso, porque a experiência foi muito boa. Mas todos estes enquadramentos servem para substanciar melhor essa experiência e para fundamentar a nossa opinião.

O RUA fica no Príncipe Real e quem está por trás deste projecto é o Chef Manuel Fernandes, vencedor da 2ª edição do MasterChef Portugal. Honestamente, para nós vale o que vale, e uma das questões assinaladas em cima – as expectativas – não tem rigorosamente nada a ver com isso. As expectativas que criámos têm tudo a ver com a promessa que o RUA faz: street food asiática, de toda a Ásia, onde se misturam as influências que o Chef trouxe das cidades onde morou (Madrid e Berlim). Influências à parte, o que nos chamou a atenção foi a “street food asiática”. E é aqui que passamos para o factor “conhecimento”.

Porque se há uma coisa sobre a qual temos ganho muito conhecimento nos últimos anos é sobre a street food asiática. E nem necessariamente de um país em particular, porque as nossas viagens recentes têm-nos levado a experimentar o que se come nas ruas da China, Japão, Vietname, Tailândia e mesmo Singapura. O que nos faz ter bastante conhecimento de causa e nos permite comparar com aquilo que os restaurantes lisboetas que aproveitam esta “moda asiática” vão fazendo.

A forma como o RUA se diferencia de quase todos os outros restaurantes asiáticos que têm aberto em Lisboa é que a street food asiática leva com um twist de cozinha de autor. O que se por um lado defrauda um pouco as nossas expectativas iniciais, por outro torna o RUA numa proposta de valor muito mais interessante e distintiva. Especialmente porque a concretização é muito boa! A carta tem um conjunto de pratos quentes e frios, quase todos para partilhar, e muitos deles que reconhecemos pelo nome, ainda que a descrição mostre que aqui têm algumas diferenças. E ainda há alguns pratos que resultam mesmo da fusão gastronómica de vários países. Mas já lá vamos.

Começamos pela carta de cocktails (também de autor), de onde provamos a Margarita RUA (com gengibre e manjericão, uma combinação muito agradável) e o Budda (uma mistura de chá verde com matcha, lichias e limão, ainda melhor que o outro). Um bom começo, por sinal.

E continuamos bem com o primeiro prato que nos chega à mesa, que se chama Taco Time! Basicamente são duas tortilhas com ceviche de polvo e camarão, pico de gallo e maionese de chipotle. O sabor é excelente e a acidez está no ponto, mas as proporções são estranhas, porque a tortilha é pequena e depois leva com uma montanha de ceviche por cima… Ou seja, acaba por ser um ceviche excelente com uma tortilha a acompanhar e não propriamente um taco.

A partir deste momento o serviço começou a ficar um pouco demorado. Aliás, bastante demorado. O restaurante estava cheio, é verdade, mas tivemos um intervalo de pelo menos 20 minutos entre cada um dos pratos que se seguiram aos tacos. No final disseram-nos que houve um problema na cozinha, mas não deixa de ser desagradável.

Ainda assim, o que vai chegando tem uma qualidade sempre muito acima da média, como por exemplo o Bao de Pato confitado, com puré de pimentos assados e cebola caramelizada. Boa a textura do bao e a conjugação de ingredientes, novamente com contrastes de sabor muito interessantes.

Depois das influências mais asiáticas e das américas, eis que chegamos ao prato mais próximo do imaginário português: o Choco Frito. Mas – claro! – aqui não podia ser um choco frito normal. Ao dito bicho juntam-se uma compota de malagueta, um ovo BT e ainda raspas de trufa. É preciso dizer mais alguma coisa?! O prato é surpreendentemente diferente e familiar e pode servir de showcase para o que se faz no RUA: a mistura de influências e de sabores, sempre com uma apresentação muito cuidada. Foi o prato da noite!

E terminamos de volta à rua… salvo seja. O Yakitory leva-nos às ruas de Tokyo ou de Hong Kong, ainda que as espetadas em si sejam melhores do que os molhos que as acompanham (abacate saiba-se lá porquê e ainda tongarashi). O prato provavelmente mais simples que provámos durante a noite, mas que demonstra que quem está na cozinha sabe exactamente o que está a fazer. E fá-lo muito bem.

A questão da demora dos pratos foi efectivamente o menos positivo de um jantar que contornou as expectativas que tínhamos e se tornou uma excelente surpresa. Mas ainda faltavam as sobremesas, que não são claramente o forte da comida asiática no geral. Felizmente o RUA afasta-se de qualquer tentativa de retrabalhar sobremesas daquelas bandas e oferece propostas não só muito originais… como muito gulosas!

Em primeiro lugar, a resposta à pergunta Are You Coco Nuts? é feita através de uma espécie de cheesecake de coco, com maracujá, caju e manjericão, uma sobremesa fantasticamente fresca e exótica. Por outro lado, temos o best-seller da casa, chamado apenas Framboesas. É uma semi esfera de framboesa com uma textura entre um gelado e uma gelatina, acompanhada de uns crumbles de cacau salgado e pistachio, uma sobremesa mais complexa mas igualmente surpreendente. Talvez as sobremesas nos afastem mais do conceito do restaurante… mas se são boas, quem quer saber?! 😛

No final, o nosso único reparo foi efectivamente para a questão da demora na saída dos pratos, que nos foi justificada. Aceitamos, até porque o RUA não estaria sempre cheio (nos dois turnos que faz aos jantares) se essa fosse uma situação recorrente. Mais do que isso, temos aqui um sítio cheio de pinta, com muitos pormenores “instagramáveis”, comida muito boa, empratamentos cuidados, enfim, uma receita de sucesso para a zona e não só.

O RUA pode não concorrer com a grande maioria dos asiáticos que existem em Lisboa, e nem faz sentido que o faça. Porque as diferenças são maiores que as semelhanças, e por isso também nem vale a pena criar expectativas em relação à comida. É deixarem-se ir e assumir que estamos num registo completamente diferente e muito mais abrangente. Que se pode encaixar nas modas e que até pode ter um Chef reconhecido ao leme, mas que vale pelo mais simples de tudo: a comida é excelente!

Preço Médio: 25€ pessoa (com cocktail)
Informações & Contactos:

Rua do Século, 149 A | 1200-434 Lisboa | 21 406 5099

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