Demasiados altos e baixos num só jantar…
Depois das tascas modernas em 2018 e das neo-tascas pós-pandemia, anda novamente para aí a “moda” de tentar replicar tascas antigas. Mas com uma diferença importante: pegando em espaços que já eram tascas ou restaurantes tradicionais e manter o seu nome, conceito e, algumas vezes ementa. O que muda é a malta à frente dos restaurantes, geralmente mais jovem e cosmopolita, e consequentemente o serviço e algumas formas de confecção dos pratos. Pode-se dizer que o espaço que esteve na origem desta “moda” foi o Vida de Tasca, mas depois foram aparecendo a Tasca Abaladiça, O Alpendre e, claro, este Varina de Madragoa. Só que, como estamos na era dos criadores de conteúdos, o grande investimento de alguns destes espaços é mesmo na comunicação em redes sociais, onde tudo é sempre maravilhoso e perfeito. Mesmo que não seja bem assim…

Ora, esta fotografia em cima mostra logo o melhor e o pior do nosso jantar no Varina da Madragoa, a “nova” tasca moderna da moda de Lisboa, que faz maravilhas entre os criadores de conteúdos… muitos deles que na realidade devem conhecer poucas tascas a sério, das antigas. E atenção, este não é um espaço novo: o Varina da Madragoa é um local emblemático na zona, aberto em 1967, e tasca de eleição de muita gente ilustre como o José Saramago e alguns políticos. Esteve para fechar mas felizmente foi recuperado e tem à frente o Chef António Lobo Xavier, com uma equipa composta de malta jovem. Nada que não tenhamos já visto, mas é sempre de saudar esta opção de recuperar sítios destes. O espaço mantem os quadros nas paredes com a história do restaurante, e sem dúvida sentimo-nos numa Lisboa antiga, é quase uma viagem no tempo.


Sobre o serviço, uma curta palavra: ainda que jovem e atencioso, parece formatado para turista. Ou pelo menos, devia estar mais preparado para responder a perguntas, e mesmo a perguntar como está a ser a refeição. Porque dois pratos vão para trás com pelo menos metade do que foi servido e não nos perguntam o que se passou. Assim como nos trazem entrada e prato principal ao mesmo tempo, com a explicação que “são os dois de peixe”. Isto afina-se, é verdade.
Mas voltemos à comida, porque foi neste aspecto que ficámos mais decepcionados no nosso jantar no Varina da Madragoa. A ementa é curta e com pratos clássicos de cozinha tradicional portuguesa, por isso pedimos aquilo que acreditamos ser escolhas seguras. Só que toda a refeição é uma montanha russa, começando com estas Pataniscas que veem na fotografia em baixo, praticamente incomestíveis por causa da polme e da fritura. Sem querer ser mauzinho (mas sendo), arrisco a dizer que foram fritas em óleo já com algum tempo, porque tinham aquele sabor a frito mau… nem sei bem como explicar melhor do que isto, mas a verdade é que foram quase as duas unidades para trás.


Felizmente, o despachar rápido das Pataniscas permitiu que o Bacalhau à Brás – que chegou à mesa ao mesmo tempo – não arrefecesse muito. Isso seria uma pena, porque este Bacalhau à Brás do Varina da Madragoa é efetivamente muito bom! Cremoso na dose certa, bem recheado de bacalhau, boa batata frita, bons temperos. Parece simples, mas infelizmente há muita gente a estragar este prato. Por isso, é sempre bom quando encontramos um bom exemplar!
Só que voltamos a cair com a Carne de Porco à Portuguesa, que está seca, completamente seca. Não há nenhum daquele molho que habitualmente este prato tem, e isso faz com que a carne esteja dura e desinteressante, assim como que não exista qualquer integração no conjunto. Nem vamos falar do corte das batatas, porque é quase uma batalha perdida, porque aqui o pior era mesmo a carne e a falta desse molho que lhe desse vida. Não nos perguntam o que aconteceu quando levantam o prato, mas depois a pessoa que parece ser a gerente de sala vem à mesa perguntar – o que é bom – e explicar que a carne ali é cozinhada em vácuo… e que efetivamente já vários clientes se queixaram da falta de molho no prato. Pois…

O resultado do jantar no Varina da Madragoa estava nesta altura em 2-1 para os pratos menos bem conseguidos, por isso mantivemos a ideia de pedir uma sobremesa, para tentar terminar bem o jantar. A sugestão de quem nos atende é certeira, ainda que não nos consiga explicar bem do que se trata, porque é uma receita da família do chef. A Maria é uma espécie de Bolo de Bolacha, só que não tem nada a ver. A textura é quase de um brigadeiro, servida numa fatia comprida, mas sabe realmente a bolo de bolacha, o que é, no mínimo, surpreendente. E depois das primeiras colheradas, começamos a habituar-nos à textura, por isso torna-se ainda melhor. Um final de jantar muito bom, igualando o resultado 😉

Saímos do Varina da Madragoa um bocado decepcionados, não há outra forma de o dizer. Mas a verdade é que isto nos está a acontecer mais frequentemente, muito por causa dos conteúdos que vemos no Instagram, onde conjuntos de criadores vão as restaurantes, comem exatamente os mesmos pratos e dizem sempre as mesmas coisas – sempre fantásticas, claro. Não devíamos ser influenciados por isso, mas somos. E depois deparamo-nos com a realidade…
Isto não significa que o nova Varina da Madragoa seja um mau restaurante, porque não é. A ideia de recuperar o espaço e manter o conceito é de louvar, o serviço tem genica e pode melhorar em pormenores. E sobre a comida, este caminho do tradicional é o certo, mas se calhar é preciso ter alguma atenção extra à confecção… e não inventar muito. Mas isto, claro, é apenas a nossa opinião. Nós, que somos mais de tascas antigas do que de neo-tascas.
Preço Médio: 22€ pessoa (com vinho)
Informações & Contactos:
Rua das Madres, 34 | 1200-109 Lisboa | 930 448 787