Uma Casa Portuguesa. A todos os níveis!
Às vezes é muito difícil categorizar um restaurante, porque existe ali num equilíbrio entre vários tipos. Uma tasca é uma tasca (e definida especialmente pelo preço), um restaurante de cozinha de autor/Chef ou de Estrela Michelin é isso mesmo… mas estes são os polos opostos. Depois entramos no campo dos restaurantes tradicionais, que na minha opinião são aqueles que ficam um passo acima da tasca, aqueles restaurantes de cozinha portuguesa que já não têm preços de tasca; mas que também ainda não são restaurantes sofisticados, que são aqueles mais caros, que já se aproximam da cozinha de autor, quer seja pelos preços, pela comida servida ou pelo serviço. Ou seja, há muitas variantes e alguns pontos em comum. E se é verdade que muitos restaurantes se encaixam diretamente em cada uma destas categorias, depois há outros que têm tantos elementos de cada categoria… que não sabemos de todo onde encaixar.

E foi exatamente com essa ideia que saímos do Feitio, em Leça da Palmeira, o novo restaurante do Chef David Jesus, um dos cozinheiros mais promissores da nova leva de chefs portugueses que teve o seu boom no pós-pandemia. Porque o Feitio é um restaurante difícil de categorizar: a comida é tradicional portuguesa mas com técnicas mais modernas e apresentação cuidada, o espaço é tradicional mas com um toque de sofisticação, o serviço é cuidado mas com uma abordagem quase de tasca. Ou seja, é o melhor de vários mundos, e foi claramente uma das nossas melhores experiências num restaurante este ano!

O jantar no Feitio aconteceu a um dia de semana e entramos num restaurante completamente vazio. “Ainda é cedo”, dizem-nos, e a verdade é que o restaurante enche rapidamente. Mas à chegada, temos então o primeiro impacto: o espaço é minimalista, e podia tocar ali no sofisticado e não pelo mobiliário utilizado e por alguns apontamentos de decoração bem pensados. Aqui não há aquela tentativa recorrente de usar peças vintage para simular tradição, o que é sempre agradável. Outra coisa que é agradável, é percebermos que a sala é dominada por um balcão, onde acontece parte da preparação de alguns pratos – e isto a nós transporta-nos para as tascas, onde o primeiro contacto é sempre com o balcão. Estão a ver onde queremos chegar?
Mas o que se destaca mesmo – tanto à chegada como durante todo o jantar – é o serviço. É certo que estamos na zona Norte do País, onde geralmente as pessoas são mais simpáticas nos restaurantes, mas aqui no Feitio, o serviço consegue ser, ao mesmo tempo, cuidado e quase formal – na forma como os pratos são apresentados, a explicação da carta de vinhos, o cuidado com os pormenores – mas também quase um serviço de tasca (ou pelo menos daquele restaurante tradicional habitual), com uma tirada mais jocosa, com uma piadola entre staff que “ilumina” a sala, com um acompanhamento sincero, honesto, bem disposto… quase familiar. Senti que éramos clientes habituais daquele espaço e que já conhecíamos aquela equipa há vários anos. E isto é um serviço perfeito!

Ora, o que é que se come então no Feitio? Comida portuguesa, num registo tradicional, com pratos que nos são muito conhecidos. Mas depois há a camada da técnica, da execução, e aqui percebemos que há elementos da confecção de cada prato onde se usam técnicas mais modernas. E isso resulta numa leveza extra em cada prato, algo que não consigo explicar de outra forma. Sentimos delicadeza mesmo naqueles petiscos/pratos que geralmente são mais… “fartos”.
Por exemplo, e entrando na parte dos petiscos, as Pataniscas de Bacalhau são incrivelmente leves, ainda que tenham muita polme e seja muito crocante. Só que o interior é bem recheado mas ainda assim nada pesado, nada massudo, e isso é surpreendente. Como o é o Croquete, bem frito, com um recheio com aquela textura de carne desfiada que acaba por ser mais leve.


Seguimos com uma das sugestões de quem nos atende: a Tiborna de Bacalhau com Broa. Duas fatias de broa bom tostadas e regadas em azeite, e por cima lascas de bacalhau com muito alho e pimento, um conjunto vencedor e cheio de sabor. É a tradição da cozinha portuguesa num pequeno prato, e mostra-nos que aqui no Feitio há mãos que sabem muito bem o que fazem.

Mas se os snacks já tinham sido bons, nada nos preparava para os pratos principais – pelo menos aqueles que conseguimos provar. E começamos por um daqueles pratos que é inevitável numa refeição nossa: o Bacalhau à Brás. Que aqui no Feitio é muito bom! A cremosidade, o sabor bem apurado, o toque crocante da batata, muito fina, um conjunto vencedor. E novamente a mesmo questão da suavidade, é um prato muito suave, mais do que o habitual. Assim como o é também o melhor prato da noite, as Bochechas de Porco Preto Estufadas com Arroz de Forno de Enchidos – que é o primeiro prato que nos sugerem, logo ao início do jantar. E aqui não há mesmo nada que enganar: as bochechas estão perfeitas a nível de textura e sabor, e o arroz… o arroz é simplesmente fantástico! Mesmo com os enchidos muito presentes no sabor, este arroz de forno acaba por ter a mesma leveza dos restantes pratos, o que é surpreendente. É um dos melhores pratos que comemos este ano, sem dúvida.


Foi muita comida, e por isso nem terminamos com o Prego no Pão, que também tínhamos em mente desde o início. Preferimos ficar por uma sobremesa, porque também aqui a carta é bastante tentadora. A opção é o Bolo de Bolacha, claro, porque tem de ser, e não ficamos nada mal: o Bolo de Bolacha do Feitio é daqueles clássicos, tem um bom equilíbrio entre o sabor a café e o creme de manteiga, que talvez só acrescentava um pouco mais, porque há pedaços um pouco secos. Mas lá está: a comida são memórias, e eu tenho uma memória muito forte sobre bolo de bolacha, por isso – e por mais que vá tentando – é difícil encontrar um que me encham as medidas a 100%.

Com a sobremesa chegam ainda à mesa os “remédios” da casa. O Ipobrufeno e o Ben-U-ron são dois licores caseiros, com ingredientes diferentes, que são uma forma simpática de acabar a refeição – pessoalmente prefiro digestivos menos complicados, basta-me um bagaço ou um medronho. Mas o que interessa aqui mesmo é a atitude, porque é aquela atitude de tasca à antiga: partilha-se o que se tem, desde a comida, feita com alma, até aos digestivos. Porque cada cliente é um amigo.
E foi o que sentimos quando saímos do Feitio: que já fazíamos parte da casa. Porque foi o que nos fizeram sentir durante todo o jantar. E foi o que vi também nas outras mesas. Por isso, a questão da categorização que usei como introdução a este review ficou meio esquecida… não conseguimos dizer se o Feitio é um restaurante de cozinha de autor, um restaurante tradicional, um espaço sofisticado ou uma espécie de tasca. E se calhar nem interessa encaixá-lo em nenhuma destas categorias… porque o que interessa é que nos sentimos em casa, sentimo-nos acarinhados, comemos muito bem e saímos com um sorriso nos lábios e a pensar sobre quando vamos regressar. E é isso que se quer de um restaurante, seja ele de que categoria for.

Preço Médio: 35€ pessoa (com vinho)
Informações & Contatos:
Rua Francisco Sá Carneiro, 59 | 4450-676 Leça da Palmeira | 934 213 652