IRRIVERENTE

IRRIVERENTE

Irreverente… mas se calhar um bocadinho demais.

Italianos há muitos! Sim, é uma verdade absoluta! Aliás, a gastronomia italiana foi sem dúvida aquela que mais facilmente se exportou para todos os cantos do Mundo, e a que mais rapidamente se instalou no seio de qualquer cultura. Por isso sim, italianos há muitos. O principal problema é mesmo decidir a qual ir, porque a maioria da oferta é sempre muito parecida…

E isto serve de enquadramento para o Irriverente… mas por motivos diferentes do que os que seriam de esperar. Porque este é um italiano diferente dos outros. Irreverente, se quiserem. E a fórmula que o restaurante encontrou para se destacar é interessante, sem dúvida. Ainda que depois seja levada ao limite do razoável… Mas já lá vamos.

O Irriverente fica na zona do Cais Do Sodré, mas na metade da Rua da Boavista mais afastada da azáfama de gente que é aquela área da cidade. À entrada, ainda numa espécie de antecâmara, somos recebidos pelo pormenor mais interessante do espaço: uma parede que simula azulejos com uma imagem de um galo de Barcelos. Não é a coisa mais lisboeta e está muito longe de ser a mais italiana, mas é realmente o mais interessante na decoração do Irriverente.

Não quer dizer que o espaço tenha alguma coisa de mal, porque não tem. Aliás, surpreende pela sua dimensão, que claramente não se percebe da rua. O restaurante tem uma só sala mas cresce em profundidade, por isso é enorme. A cozinha é semi-aberta, conseguimos ver alguma da azáfama, e tudo o resto segue assim um estilo moderno mas inóquo.

As mesas simulam o mármore – como é habitual em muitos italianos – e a iluminação suspensa cria um ambiente agradável. Nada de novo, mas resulta sempre bem. Pena o lcd enorme numa das paredes, que promete transmissão de jogos de futebol ou ainda pior… aquela transmissão contínua de canais de videoclips. Enfim…

A disposição do restaurante está um bocado alinhada pela respectiva página no Zomato, e leva-nos a acreditar que se trata basicamente de um restaurante para grupos. No dia em que vamos estão poucas mesas ocupadas e apenas por casais e famílias, e até nos dizem que apenas reservam duas mesas grandes para os tais grupos. O que é bom, pelo menos na nossa opinião.

Até porque a carta, por mais que tenha pratos consensuais para grupos, é mais complexa do que imaginávamos. E aqui entramos então naquilo que diferencia o Irriverente dos outros restaurantes italianos… e que depois acaba por se tornar um pouco chato. Isto porque neste restaurante temos uma carta que tem tanto de italiano como de português, numas partes separado, noutras tudo um bocado misturado. Ou seja, temos entradas portuguesas e outras italianas, com muita escolha, aliás, demasiada. E depois, quando entramos nos pratos, passamos para um registo típico de restaurante italiano… mas em cada secção temos pratos italianos típico e depois variantes ajustadas à gastronomia portuguesa. Confuso? Pois…

Isto resulta em pizzas à italiana e depois outras com conjugações de ingredientes que fazem lembrar pratos portugueses. E isso não acontece só nas pizzas, temos a mesma lógica nas saladas, nas pastas, nos risottos. O que significa que temos em mãos uma lista que, por um lado, pode ser vista como original (irreverente, vá, só mais uma vez), mas por outro se torna longa e cansativa, o que provoca mais indecisão do que certezas. “Vou para os clássicos italianos ou experimento estas coisa mais diferentes? E se depois não gosto?”…

Bom, nós experimentámos um pouco de tudo, porque faz parte do ritual. Na realidade, escolhemos o que nos chamou a atenção em cada secção. E, por isso, chegaram-nos à mesa coisas interessantes e outras nem por isso. Mas, acima de tudo, houve muita confusão. No processo de escolha, nos próprios pratos… enfim, isto para dizer que a ementa do Irriverente pode querer ser irreverente, mas devia ser mais curta e mais assertiva.

Começamos com a Bruschetta com Presunto, Rúcula e Parmesão, clássico italiano que aqui peca pelo pão que não está tostado, está apenas duro, e por ter demasiada rúcula em comparação com tudo o resto. Por outro lado, os Ovos Rotos com Batata e Cebola são muito melhores a nível de sabor… mas não são ovos rotos a sério. São assim uma interpretação do restaurante, não são de todo os ovos rotos como se fazem em Espanha. Há batata (cozida?!) e cebola, mas depois há também um bocado de uns ovos mexidos pelo meio. É estranho, porque o nome cria uma expectativa que depois sai completamente furada. Mas, ainda assim, é um prato que resulta a nível de sabor.

Depois entramos nos pratos principais, onde continuam as fusões. Por exemplo, na Pizza Trás-os-Montes, que tem um formato quadrado (por ser… adivinharam… irreverente?) e é composta por molho de tomate, mozzarella, presunto, figos secos, parmesão e mel. A combinação é muito boa, mas porquê Trás-os-Montes? Pelo parmesão? Porque tudo o resto pode ser encontrado noutra zona qualquer do país… ou de Itália.

O outro prato foi decidido ainda antes de chegar ao restaurante, quando vimos a ementa na net: o Risotto Mirandela. Pois que esta maravilha tem a base normal de risotto mas com alheira, e ainda crocante de alheira, ovo escalfado e parmesão. Aqui o nome faz todo o sentido, e novamente não há nada a apontar nem no sabor nem na confecção. O arroz está no ponto perfeito, o ovo também está excelente, e o sabor é intenso mas sem passar os limites do tolerável. Um belo prato, altamente recomendado para quem gosta deste tipo de coisas! 🙂

Felizmente, a irrever… desculpem, as misturas das duas gastronomias não se estendem às sobremesas, ou pelo menos não de forma muito óbvia. Aqui provámos o Brownie, que é acompanhado com mousse gelada de lima e limão, caramelo salgado (e tudo fica melhor com caramelo salgado!), chocolate preto e praliné de frutos secos, e que é uma fantástica sobremesa, daquelas mesmo decadentes, de comer e chorar por mais.

E provámos também o Cheesecake Desconstruído… que é um estrondoso “fail”! Basicamente porque não faz sentido desconstruir uma coisa que está bem construída! Aqui temos um monte espalhado de creme de chocolate branco e lima, salpicado com crumble e crocante de bolacha e depois um molho de frutos vermelhos assim meio atirado por cima… Mas porquê inventar?! Assim os elementos ficam todos separados, não há ligação rigorosamente nenhuma, as texturas são todas iguais… Que pena.

A nossa refeição teve demasiados altos e baixos – ou, pelo menos, demasiadas coisas estranhas que não funcionam assim tão bem – para sairmos do Irriverente a achar que é um restaurante fantástico. A base da confecção dos pratos é, na generalidade, boa, e principalmente os principais têm bastante sabor. Mas são referências a mais… Itália, Portugal, Espanha… tudo misturado.

No fundo, o Irriverente tem aquilo que muitos restaurantes procuram (ou nem sequer tentam): um factor de diferenciação. A ideia de misturar completamente as duas gastronomias parte de um princípio interessante, mas o facto de ser levada à exaustão torna-se um pouco cansativo e confuso. Talvez não num registo de jantar de grupo, com menus mais orientados, mas no registo a dois é diferente. Ainda assim, pontos pela… irreverência! 😉

Preço Médio: 20€ pessoa (com vinho)
Informações & Contactos:

Rua da Boavista, 88 | 1200-068 Lisboa | 926 382 645

Nota final: fomos a este restaurante por convite do próprio. Mas, como em todos os outros restaurantes que visitamos, fomos em regime “cliente mistério”, sem anunciar a nossa visita, para ter uma experiência completamente isenta e poder dar uma opinião verdadeira.

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