O VELHO EURICO

Mudam-se os tempos… mas mantém-se a tradição.

Abrir um restaurante não é um processo fácil, e torná-lo num restaurante rentável ainda exige mais. Mas ainda mais complicado é quando se abre um restaurante no mesmo sítio de outro que lá existia anteriormente. Se a casa antiga era má, o espaço novo abre mas os clientes ficam sempre de pé atrás; e se a casa antiga era das boas, os clientes habituais vão ter ainda mais reticências… No fundo, é sempre complicado para quem pega nestes espaços. E, tendo em conta a rotatividade da restauração lisboeta, se um destes restaurantes não vinga nos primeiros meses, pode estar (quase) condenado a fechar ao fim de um ano. Felizmente, esse não nos parece ser o caso d’O Velho Eurico.

Ora, O Velho Eurico abriu há cerca de 6 meses… no local onde antes havia um restaurante tradicional chamado… adivinharam: Eurico. Que era um restaurante de bairro, com bastante história, frequentado pelos moradores mais antigos. E que depois fechou. E que então passou para as mãos de um grupo de malta nova e empreendedora, que resolveu fazer do espaço uma “tasca moderna”. Iluminação trendy, mobiliário vintage, pratos escritos num quadro de ardósia, vibe de gente nova, música ambiente… enfim, diria que é, no mínimo, arriscado. Mas se é verdade que sentimos tudo isto quando entramos n’O Velho Eurico (e nunca tínhamos estado no anterior, no velho mesmo), a verdade é que também percebemos que há aqui uma tentativa de agradar à malta mais jovem, mas sem descurar o target que estava habituado ao restaurante anterior.

Há aqui reminiscências da Taberna Sal Grosso, mas prontamente assumidas por um dos responsáveis pelo espaço (que, aliás, passou pela cozinha desse restaurante). Mas se o espaço e alguns pormenores de decoração (e o ambiente, em geral) até faz lembrar o pequeno espaço em Santa Apolónia, a principal diferença está nos pratos apresentados em menu. Que, ainda que tenha o mesmo conceito base, n’O Velho Eurico os pratos são mais reconhecíveis do que no Sal Grosso. E ainda bem, porque assim consegue abranger o target do novo espaço e também os clientes antigos, que conheciam o verdadeiro “velho” Eurico.

Ainda que as doses sejam suficientes para uma pessoa (e com preços bastante simpáticos), aqui estamos num registo de partilha de vários pratos, pelo que a experiência em grupo funciona bem melhor. Podemos (devemos!) começar com Croquetes de Borrego, com um aspecto tosco e bem recheados como se quer, acompanhados de um bom molho. Ou então com a única coisa que estranhamos ao ler a ementa: o Pastel de Cabidela. Provamos, claro, mas é uma pequena decepção,… bom o pastel, com boa massa, mas o interior é basicamente frango guisado, sem o sabor típico que esperamos da cabidela (nem o aspecto, diga-se). Mas pronto, seguindo em frente.

E seguimos com pratos tradicionais, simples, mas que são exactamente aquilo que queremos numa tasca, mesmo que nesta sua versão “moderna”. O Arroz de Pato é diferente do que esperamos, porque em vez de ir ao forno leva com o maçarico para tostar a parte de cima, o que faz com que o arroz fique mais cremoso e húmido, mas isso não lhe altera o sabor. Por outro lado, o Bacalhau à Brás é exactamente como estávamos à espera, e exactamente como se quer. Húmido, bom equilíbrio entre o bacalhau, os ovos e a batata, um bacalhau à brás à antiga, sem invenções, delicioso. Daquele tipo de pratos que agradam a clientes novos e aos que conheciam o Eurico antes, porque têm aquilo que está na base da cozinha tradicional portuguesa: sabor e simplicidade.

Mas há muito mais coisas na ementa d’O Velho Eurico que dão vontade de provar, exactamente por serem tão tradicionais. Nós seguimos com as Migas de Farinheira, que vieram para a mesa no meio de outros pratos mas que nem considerámos um acompanhamento, porque são boas, bem temperadas, e daquelas ao estilo ribatejano, que honestamente até me agradam mais do que a versão alentejana.

o velho eurico migas

Ou então outro clássico das tascas de Lisboa, as Iscas de Cebolada. Aqui com as iscas a terem passado ligeiramente do ponto, mas ainda assim com um molho perfeito, intenso, guloso, boa cebolada, boas batatas a acompanhar. Não é um prato que agrade a toda a gente mas está nas nossas memórias de infância. E é disto que é feita a comida, é de recordações.

Para terminar os pratos que dividimos, ainda antes das sobremesas, o primeiro que nos chamou a atenção. A Feijoada de Sames (de bacalhau) é um daqueles pratos que já não se encontra assim muito por Lisboa, mas que quando é bem feita, é uma delícia. Aqui é muito bem feita, muito saborosa, e por isso é uma forma excelente de terminar esta pequena viagem pelos sabores tradicionais portugueses, aqui pelas mãos de malta nova e muito competente.

o velho eurico

As sobremesas não estão escritas no quadro de ardósia, é aquilo que houver no dia. Para nós estavam reservadas um bom Leite Creme, que ainda que não tenha sido queimado no momento, é muito bem conseguido; uma Pêra Bêbada também muito interessante; e a melhor de todas, uma simples Mousse de Chocolate, servida com um fio de azeite, caseira, gulosa, perfeita. Perfeita!

o velho eurico sobremesas
o velho eurico licores

No final, há várias aguardentes para acompanhar o café, todas caseiras. Outro pormenor que faz lembrar o Sal Grosso, sim… mas que na verdade já vem inspirado das tascas, daquelas à antiga. E é essa a comparação (ou referência, se quiserem) que mais interessa. Este novo O Velho Eurico tem realmente o problema de poder não agradar a quem conhecia o restaurante antigo, mas em relação a isso não se pode fazer mais do que tentar oferecer boa comida e bom serviço. E isso acontece, por isso, mesmo que a comida não seja servida em doses grandes e travessas de inox, há aqui material para agradar aos habitantes mais antigos da zona. Quanto aos outros, a malta mais jovens, os estrangeiros, toda a gente que gosta deste ambiente (e comida) de tasca moderna, aqui vai sentir-se em casa. O Velho Eurico consegue agradar a todos porque é, acima de tudo um espaço honesto: serviço simpático, preços aceitáveis e comida simples e boa. Tudo aquilo que se quer num restaurante. Seja ele novo… ou velho.

Preço Médio: 18€ pessoa (com vinho e vários pratos a dividir)
Informações & Contactos:

Largo de São Cristóvão, 3 | 1100-513 Lisboa | 961 858 293

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