Uma TASCA como já não existem!
Sei que é repetitivo, mas este é o meu espaço e repito-o as vezes que quiser: é sempre maravilhoso descobrir um spot completamente do nada, um restaurante do qual não temos nenhum tipo de referência… e mais do que isso: ser surpreendido porque esse sítio se trata de uma tasca daquela à antiga, daquelas que vão desaparecendo lentamente com a falta de gente para trabalhar na área (e a gentrificação, claro). Daquelas de onde saímos completamente apaixonados e a querer voltar no dia seguinte.
Foi o que nos aconteceu recentemente com o Bar Portas Verdes, que ainda por cima fica ali na zona do parque das Nações – uma zona onde as tascas já não abundam… de todo. Um sítio onde fomos ter quase por acaso, antes de um concerto, em grupo, sem saber bem ao que íamos… e de onde saímos rendidos!!!

E aqui começamos logo ao telefone, quando ligo para marcar mesa – porque é um hábito que tenho, seja em que restaurante for. A senhora que me atende fica meio surpreendida por estar a tentar marcar mesa num dia de semana ao jantar, mas diz que sim, claro. E depois continua logo a dizer que “está a fazer bacalhau à brás, e que depois há bitoque e outras coisas grelhadas”. Ou seja: modera lá as expectativas, tu que ligas para cá a marcar mesa… aqui vais comer o que houver! Mal ela sabia que isto só fez com que as minhas expectativas ficassem ainda mais altas!

Porque há qualquer coisa de mágico neste tipo de sítios como o Bar Portas Verdes. São sítios efetivamente genuínos, simples, onde as pessoas não têm aquelas barreiras entre o serviço e o cliente. Quem ali entra vai para comer e beber, mas para comer e beber o que a cozinha tiver feito, e não há nenhum problema com isso, porque é assumido. Há o que houver, e o que houver é feito com todo o coração, é servido as vezes que quisermos, porque aqui ninguém fica com fome.
E o que havia naquela noite era uma simples mas reconfortante Sopa de Legumes, que ninguém na mesa disse que não queria por simpatia… e que todos terminámos tão rápido que se houvesse mais, continuávamos. Mas não era preciso, porque já nos tinham avisado que havia muito Bacalhau à Brás e era para comer todo! Estão a ver o registo? 🙂

Se é o melhor Bacalhau à Brás que já comemos? Não, não é. Mas nem precisa de ser, porque é o que foi servido de forma mais simpática e genuína. E é efetivamente bom, com os ovos no ponto certo e bastante bacalhau – podia apenas estar melhor temperado, mas eu sou de coisas salgadas. Um Bacalhau à Brás que cumpre na perfeição o que este prato deve ser, e servido numa travessa de inox, como é apanágio de uma boa tasca. Que é exatamente aquilo que o Bar Portas Verdes é!

Para além do bacalhau, o que havia mais era bitoque e alguma carne para grelhar. Foi isso que pedimos, não por fome mas por gula, e o que recebemos foram umas belas Febras, muito saborosas, acompanhadas de umas batatas fritas caseira simplesmente maravilhosas. Comida simples, comida boa, servida por boa gente, com simpatia genuína. Aquela simpatia que também faz com que a sobremesa possa ser uma fatia de Bolo de Laranja que uma vizinha tinha acabado de lá ir entregar. A dona do espaço prova primeiro, depois dá a provar, e quando dizemos que sim, siga uma fatia. Nem está em questão se era bom ou não (e era), o que importa aqui é a forma como as coisas são feitas, como fizéssemos todos parte da família.


No final do jantar, bebemos café (com cheirinho) ao balcão e conversamos mais um pouco. Pouco é também o que pagamos, e é por isso que, numa altura em que continuam a proliferar as “neo tascas” ou as “tascas modernas”, é importantíssimo não perdermos as tascas antigas, aquelas a sério. Porque são mesmo parte do nosso património e, mais do que isso, são locais onde nos vamos sempre sentir em casa.
O Bar Portas Verdes é um daqueles sítios que – infelizmente – vai desaparecer quando quem o gere deixar de ter vontade de o fazer. E como já não há quem pegue neste tipo de restaurantes e os mantenha genuínos (excepção feita ao que a Leonor Godinho fez com a Vida de Tasca), eles vão desaparecendo. E nós ficamos mais tristes e mais pobres. Por isso, aproveitem enquanto podem e entrem por estas portas verdes adentro. Acreditem que não se vão arrepender!
Preço Médio: 15€ pessoa (se abusarem muito no vinho)
Informações & Contatos:
Rua da Centieira, 40 | 1800-056 Lisboa | 218595138