TASCA ABALADIÇA

Viva as Tascas a sério!!!

Acho que já estamos todos a ficar um bocado fartos de “neo tascas”, não estamos? Pelo menos nós estamos. Já não há paciência para aqueles sítios que dizem recriar as tascas tradicionais lisboetas, cheios de decoração vintage, com pratos mais ou menos tradicionais mas com twists modernaços, sempre numa óptica de partilha. Estas “neo tascas” evoluíram da moda das petiscarias modernas, que nos assolou há uns 8 anos, mas na realidade têm muito pouco a ver com as tascas tradicionais. Não só por causa da comida e dos preços, mas especialmente por causa do ambiente, que é boémio sim, mas numa óptica turística… e de partilha em redes sociais. E uma tasca clássica não é assim.

Felizmente, parece-nos que começamos a ver nascer uma tendência nos últimos tempos. Talvez tenha começado com a nova vida da Taberna Os Papagaios (quando o Joaquim Saragga Leal pegou no espaço), e passou de certeza pela Vida de Tasca, onde a Leonor Godinho teve “tomates” para manter o mesmo conceito de tasca de bairro que encontrou, e que agora é local de eleição tanto da malta do bairro (de todas as idades) como da malta jovem curiosa. E esta tendência de regresso à tasca verdadeira continua agora com a abertura da Tasca Abaladiça. Que é uma das grandes aberturas de 2026!!!

A Tasca Abaladiça é o novo projeto do Filipe e do Vitor, responsáveis pelo Copo Largo, outra referência da restauração lisboeta. Mas a ideia para este espaço foi voltar mesmo às raízes e fazer uma coisa muito simples: uma tasca de bairro, com pratos simples e tradicionais, a preços abaixo ou a rondar os 10€. Estamos na zona do Rego, e numa rua onde há 4 ou 5 restaurantes daqueles mesmo tradicionais e sempre cheios, o que traz um desafio acrescido. Mas é um desafio ganho, na nossa opinião, porque esta Tasca Abaladiça é assim um daqueles achados maravilhosos que não aparecem frequentemente!!

O espaço é pequeno, com poucos lugares, e é verdade que lhe falta ainda alguma decoração, mas há tempo para isso. Porque aqui mais importante que as paredes ainda brancas é mesmo o ambiente, e é impossível não sentir o vibe de uma tasca a sério! Há barulho no ar, mas porque as pessoas estão bem dispostas. Há um daqueles serviços à antiga também, simpático e atencioso mas também sem estar demasiado “à vontadinha”.

E o que é que se come na Tasca Abaladiça? Pratos tradicionais portugueses, com certeza!
A ementa é relativamente fixa e não muito longa, para agilizar as coisas na cozinha. Mas estamos a falar de pratos daqueles que esperamos numa tasca portuguesa, alguns de inspiração alentejana (ou não fossem os donos de lá). Acima de tudo, estamos a falar de comida sem invenções, simples, genuína… e cheia de sabor!

Tasca Abaladiça

Começamos com pão e uns queijinhos, e ainda aquele típico pires de tremoços e azeitonas, para nos entreter enquanto as coisas começam a ser encaminhadas na cozinha. E ainda comemos uns fantásticos Pastéis de Bacalhau, dos melhores que temos comido! Acompanham perfeitamente o vinho da casa, que é excelente… e ficam ainda melhores com o picante caseiro, acreditem!
Mas não demora muito até começarem a chegar à mesa os pratos, e é nesta altura que ficamos com a certeza de que esta Tasca Abaladiça é uma das grandes aberturas do ano!

Tasca Abaladiça
Tasca Abaladiça

Provámos toda a ementa e tudo é muito bom, mas ainda assim houve claros favoritos, que até repetimos – calma, éramos um grupo grande. O Frango à Passarinho e o Cação de Coentrada, por exemplo, entram no nosso top de Melhores Pratos do Ano, mas assim de caras! Simplicidade e sabor, muito sabor! O Cação, para terem uma ideia, acabou com quase toda a gente na mesa a pedir colheres para terminar o molho tipo sopa. É incrível! Mas podemos continuar com a excelente Carne de Alguidar, servida com umas das melhores Migas que já comemos. Ou os Lagartinhos, grelhados na perfeição, super viciantes!

Tasca Abaladiça
Tasca Abaladiça

Ainda temos uma Massada de Peixe muito boa e bem recheada, uma Jardineira – que, na minha opinião, é um dos pratos mais subvalorizado da cozinha portuguesa – super apurada e, finalmente, uns Choquinhos à Algarvia (que não parecem bem “à Algarvia”, sejamos honestos) que são o elo mais fraco de toda a refeição, por serem apenas “normais”.

Tasca Abaladiça

Uma palavra final para o acompanhamento de alguns dos pratos: a batata cozida. Para mim, batata cozida é sinónimo de cozinha tradicional portuguesa, e por isso de tasca! E uma boa batata cozida, ali mesmo no ponto, é um acompanhamento fantástico. Até nisso a Tasca Abaladiça não falha: excelente batata cozida!

Ainda pedimos as três sobremesas disponíveis na ementa, porque nunca pode faltar um doce. Novamente, coisas simples e tradicionais, se descontarmos a Mousse de Lima (muito boa, por sinal): temos uma boa Mousse de Chocolate, tradicional, sem sal ou azeite por cima, e um Leite Creme bem queimado no momento, saboroso, ainda que com a textura um pouco líquida demais.

É já com os cafés que chega então a “abaladiça” que dá nome à Tasca Abaladiça: no fundo, um digestivo que é a última coisa a vir para a mesa, para mostrar ao cliente que tem de ir embora. Aquele miminho que fica sempre bem, e que não ia faltar de certeza num restaurante do Filipe. Porque a arte de bem receber é efetivamente uma arte, e já há pouca gente assim na restauração lisboeta, infelizmente – gente que sabe receber, sem ter de tornar tudo num ambiente “rock’n roll”.

A Tasca Abaladiça é já, de caras, uma das grandes aberturas do ano em Lisboa. Esperávamos que fosse bom, mas não esperávamos adorar tanto! Pela comida, é verdade, com aquela simplicidade que nos toca no coração e aqueles sabores perfeitos que nos enchem de alegria. Mas muito pelo facto desta malta ter resolvido abrir uma tasca a sério, no contexto atual. É um remar contra a maré, mas ainda bem, porque a maré não nos está a levar para os melhores caminhos… A Tasca Abaladiça é a afirmação da nossa cultura, da nossa gastronomia, do nosso País!

Tasca Abaladiça

Preço Médio: 18€ pessoa (com vinho da casa)
Informações & Contactos:

Rua Dr. Álvaro de Castro, 15 | 1600-059 Lisboa | 934 636 604

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